Em meio às dificuldades econômicas e impactos sociais causados pela pandemia, em 2021 a sociedade brasileira também se viu em meio a uma crise hídrica que impactou diretamente na conta de luz de toda a população. No início de julho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou a realização de uma campanha de conscientização de uso responsável da energia elétrica. As próprias distribuidoras de energia elétrica deverão contratar agências de publicidade para a criação da campanha, que será veiculada na imprensa. Essa é uma tentativa de minimizar os impactos de um possível racionamento no fornecimento de energia. O início do próximo período chuvoso está previsto para novembro.

Além das mudanças climáticas que interferem no regime de chuvas, parte do problema está na forma de fazer a gestão dos recursos hídricos. De acordo com o secretário-executivo do Observatório das Águas (OGA), Ângelo José Rodrigues Lima, para discutir as soluções para crise hídrica atual, em primeiro lugar, o país deve lançar mão das diferentes instâncias e organizações que fazem parte do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. “Se somente o poder público discutir a situação emergencial, corre-se o risco de privilegiar um ou outro setor, o que pode ocasionar conflitos entre os usos da água para energia, abastecimento e irrigação”, afirma Lima.

Além disso, Lima destaca que é necessário aproveitar as diversas informações existentes sobre as bacias hidrográficas, analisar técnica e politicamente os dados e, a partir disso, encontrar as soluções para minimizar os efeitos da crise sobre os usos da água, destinada principalmente ao abastecimento humano, geração de energia e produção agrícola. “É provável que, de alguma forma, todos os setores e usos da água sejam afetados, mas a solução não pode prejudicar mais um segmento do que outro. Vale lembrar que, em caso de escassez, a lei diz que os principais usos a serem preservados são para abastecimento humano e dos animais”, afirma.

Segundo o secretário-executivo do OGA, quando se analisa o manejo e uso do solo, o modelo de produção agrícola, a concentração de ocupação na área urbana e o desmatamento, já não se pode mais colocar a culpa somente na ausência de chuva nesta nova crise hídrica.

Vale lembrar que a Floresta Amazônica é responsável pelas chuvas que chegam às regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, por meio dos rios voadores. “O aumento do desmatamento em todos os biomas do Brasil provoca a diminuição das chuvas. Ao mesmo tempo, quando chove, por conta da ausência da cobertura vegetal, a água da chuva não se infiltra no solo. Isso impede a regularidade na quantidade de água durante o período seco”, diz.

Para Lima, é essencial que a discussão sobre as soluções para a crise hídrica passe pelo momento emergencial, mas não deve se perder de vista a implementação de soluções para se antever às possíveis e futuras crises hídricas e de governança.

Segundo ele, é preciso elaborar planos de contingência, fiscalizar e monitorar o desmatamento, integrar a gestão das águas com a gestão ambiental e integrar o manejo e uso do solo na área urbana e rural, além de desenvolver incentivos para a redução das perdas no sistema de abastecimento da água, hoje em média de 40%.

Fonte: https://umsoplaneta.globo.com/clima/noticia/2021/08/01/as-solucoes-para-a-crise-hidrica-que-ameaca-o-fornecimento-de-energia-no-brasil.ghtml