Elétricas e petrolíferas encontram-se no caminho pela sustentabilidade. Com grandes e pequenos investidores a ansiarem por dinheiro verde, a crescente concorrência não deverá secar o financiamento.

Tradicionalmente atrativo na remuneração dos acionistas, o setor da energia enfrenta um dilema entre pagar mais dividendos ou investir para ser mais verde. As elétricas estão na linha da frente da transição energética e começam a conseguir que a energia renovável seja financeiramente competitiva face a combustíveis fósseis, enquanto as petrolíferas correm para tentar apanhar o comboio (elétrico).

“Embora as indústrias pertençam ao setor da energia, as estratégias seguidas por uma e pela outra [utilities e petrolíferas] têm sido diferentes devido à natureza dos seus negócios, sendo as empresas de petróleo as fornecedoras da matéria-prima para que as empresas de eletricidade possam produzir eletricidade”, começa por explicar fonte oficial da área de ESG (environment, social and governance) da Santander Asset Management.

“Temos de ser mais exigentes com os investimentos”

Ler Mais

As elétricas têm a possibilidade de escolher a matéria-prima mais adequada em cada momento para a geração de eletricidade. Tendo essa possibilidade (e com países e organizações focados na transição energética e da descarbonização da economia), as concessionárias direcionaram estratégias para uma economia mais verde e sustentável, incluindo adquirindo know-how, desenvolvendo projetos de energia renovável a um custo cada vez mais competitivo e reduzindo a dependência de subsídios públicos.

O cenário é generalizado a vários mercados, nomeadamente o português. Os incentivos à geração de eletricidade de fontes renováveis teve, em Portugal, a forma de tarifas garantidas (feed-in) aos produtores, que ainda hoje são pagas pelos consumidores na fatura da luz. Apesar disso, o regime de subsidiação tem sido substituído por alternativas, como os leilões de energia solar.

A transição tem sido acompanhada pelo reforço do investimento privado. A maior utility no país, a EDP, anunciou no ano passado um novo plano estratégico focado neste segmento. Entre 2019 e 2022, previa investir cerca de 12 mil milhões de euros, dos quais sete mil milhões de euros (ou 75% do total) para renováveis. Dentro de dois anos, a EDP espera que a renováveis representem mais de 70% das fontes de geração de energia.

Criar projetos rentáveis vs comprá-los já prontos
Por outro lado, “as empresas do setor do petróleo, mais do que a oportunidade, precisam de alterar completamente a estratégia para enfrentar os desafios da mega-corrente ESG, num curto espaço de tempo para adquirir o know-how que as empresas elétricas já possuem”, lembra a Santander AM. É por isso que a “estratégia em geral baseia-se mais na aquisição de ativos renováveis ​​já em operação ou na subcontratação da sua construção, o que aumenta os custos e, portanto, reduz a rentabilidade dos projetos”.

É disso exemplo o plano de investimentos da portuguesa Galp Energia. Só este ano, já comprou dois projetos ligados a energia renovável. Em janeiro, anunciou a aquisição de uma empresa de energia solar em Espanha, a Zero-E, num investimento que vai ascender a 2,2 mil milhões de euros até 2023. Em julho, comprou também uma participação de 50% nos projetos de construção de duas centrais fotovoltaicas em Ourique, onde vai investir um total de 315 milhões.

“As empresas de oil & gas compreenderam há muito as ameaças da deslocação dos combustíveis fósseis e começaram a investir em fontes alternativas de energia”, explica Alina Donets, gestora de portefólio da Allianz Global Investors. Gigantes do setor como a Shell ou a BP estão a redirecionar o capex para energias limpas, uma tendência que foi acelerada durante a pandemia devido ao crash dos preços do petróleo, como mostram as contas trimestrais das duas petrolíferas.

“No entanto, muitas empresas de oil & gas têm sido amplamente criticadas pelas metas serem insuficientemente ambiciosas para responder ao Acordo de Paris. Muitos dos investimentos que estão a ser feitos constituem uma parte irrisória do capex total anual, com a maior parte do capital ainda a ser investido na geração de combustíveis fósseis”, aponta Donets. No caso da Shell é 10% do gasto anual.

Fonte: https://eco.sapo.pt/especiais/ser-verde-e-atrativo-para-os-acionistas-o-novo-desafio-das-energeticas/